quarta-feira, 19 de abril de 2017

Os neo-anti-infalibilistas: Salza, Siscoe, Nougué & lamentável companhia (Parte 1)

  Ciente das inumeráveis tentativas de desmerecer o sedevacantismo, o cabeça da atual Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) - o bispo suíço Bernard Fellay - deu seu patrocínio a uma obra de caráter teologicamente duvidoso, promovendo-a com amplos elogios e passando a vendê-la, durante algum tempo, na livraria virtual que lhes servia em seu seminário nos EUA. No entanto, esse quadro mudou - o destaque para a obra foi retirado do site muito antes do esperado para um título novo. O livro praticamente sumiu dos destaques e chamadas virtuais tão pronto quanto saiu...

  A causa (inconfessável para a FSSPX) disso nos é conhecida: tal se deu após a divulgação dos vídeos de um antigo membro da dita fraternidade - o padre Anthony Cekada - nos quais o sacerdote demolia lógica e retoricamente todo o arrazoado dos autores do libelo anti-sedevacantista - os Srs. John Salza e Robert Siscoe.

 Eis, abaixo, a refutação prévia dos princípios que estruturaram o lançamento espalhafatoso do livro "True or False Pope?", com a aprovação da FSSPX e loas do bispo B. Fellay:



    Refutação ao cerne da tese do mesmo (lamentável) livro, após seu lançamento público: 



    Arremate final contra tentativas de tergiversar após a humilhação pública do vídeo anterior:



  Quebrando as pretensões de salvar a tese com novos argumentos aduzidos dos protestantes, cismáticos orientais e católicos anti-infalibilistas do século XIX:




  Em suma: a FSSPX cometeu mais um equívoco memorável ao apoiar essa obra patética dos srs. Salza e Siscoe, comprometendo de maneira grave sua credibilidade pública ao fazer eco a erros grosseiros de teologia por puro partidarismo ideológico anti-sedevacantista. Vergonha!

segunda-feira, 17 de abril de 2017

História do Catolicismo Tradicional no México


  Abaixo, segue uma coletânea cronológica de diversas personagens importantes da histórica resistência católica do México, iniciada pelo valoroso Pe. Joaquín Saénz y Arriaga ainda nos tempos de João XXIII e Paulo VI. Vale muito a pena conferir essa série, que já está na sua XVIII parte, no site original das postagens.


  Optei por esse link em detrimento do original (que pode ser acessado nos links de cada post do fórum Hispanismo) em razão de sua estruturação didática e uniforme dessa série de artigos históricos.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Sermões Católicos Tradicionais - até sobre exorcismos!


   Aos amigos que ainda não conhecem fonte confiável de sermões católicos de orientação sedevacantista, sugiro o site http://www.traditionalcatholicsermons.org; neste site, todos os amigos poderão encontrar sermões excelentes não apenas sobre a liturgia diária e sobre a adequada interpretação das sagradas escrituras conforme o magistério católico, mas também sobre diversos temas, a saber: espiritualidade, vida mística, vida dos santos, santificação pessoal, crise da Igreja, apologética geral, catecismo, doutrina social e política da Igreja, etc.

   Há sermões narrados de grandes santos, inclusive encabeçando as indicações de cada seção do site, disponíveis na íntegra, em inglês. Também há sermões de abades, padres e bispos católicos tradicionais (Robert McKenna O.P., Mark Pivarunas do CMRI, Daniel Dolan e Donald Sanborn da SGG, etc), incluindo alguns que perfizeram exorcismos e trazem grande conhecimento confiável sobre tal tema tão conspurcado na atualidade - seja pelos excessos da indústria cinematográfica, pela curiosidade mórbida de desequilibrados acerca do tema ou ainda pela fraqueza doutrinal dos ensinamentos sobre o tema, usualmente feitos por figuras indiscretas e bem extravagantes (como Pe. José Antonio Fortea e seus errôneos livros sobre a vida angélica, a queda, exorcismos e outros temas correlatos).

   Desfrutem! Uma ótima opção para quem quer formação católica de qualidade!
   

Sedevacantismo em vídeo 1 - Entrevista com Pe. Anthony Cekada


   A todos que ainda não conhecem o Pe. Cekada, aconselho vivamente a verem este vídeo abaixo. O modo como ele se tornou um sedevacantista e como ele ensina (tanto para o público mais leigo e comum como para um público mais erudito) a lidar com a questão da heresia modernista entranhada na Igreja é direto. Suas pitadas de humor unidas a uma lógica adamantina e a uma retórica fluida são memoráveis, garantindo sempre um bom conhecimento irmanado a explicações sérias sobre como os hereges modernistas estão usurpando, através de suas mentiras, o poder da benévola influência da Igreja no mundo hodierno. Com bom humor e muito saber, chega até uma explicação digna de atenção para todo amante da Santa Madre Igreja Católica.

   Vídeo em inglês. Deus vos abençoe!



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Silogismo Anti-Sedevacantista 2 - Não importa se 'X' é ou não Papa, o que importa é ser Católico!

Voltamos com a série dos "silogismos anti-sedevacantistas".

Uma das objeções que têm se tornado das mais comuns durante esses tempos nos quais vemos a Sé de Pedro usurpada por um farsante como Bergoglio é a objeção indiferentista quanto à importância de se afirmar se o atual suposto sumo pontífice verdadeiramente é ou não sucessor da Sé Apostólica de São Pedro. 


Escolhem simplesmente ignorar suas ordens, sua existência, sua importância efetiva e concreta, simplesmente "permanecerem vivendo a fé católica de sempre", como se nada houvesse ocorrido. E, para tanto, alegam - como exemplo dessa atitude - a atitude dos diversos católicos no período do grande Cisma do Ocidente.


Procurando resumir e simplificar a argumentação dos indivíduos que enxergam de maneira tão turvada a realidade - visando, quiçá, afastar os fiéis de um espantalho delirantemente imaginado como sendo "o tão prejudicial sedevacantismo" (sic) - , teríamos um silogismo formado do seguinte modo:

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Premissa 1:

Durante o cisma do Ocidente, os católicos permaneceram fiéis à Fé Católica mesmo sem saber quem era, realmente, o papa reinante.

Premissa 2:

Oras, os católicos hoje não podem saber quem é, realmente, o papa reinante.

Conclusão:

Portanto, os católicos hoje permanecem fiéis à Fé Católica independentemente de saberem quem realmente é o papa ou se de fato há a vacância da Sé Apostólica.


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Os problemas começam ao analisarmos a complexidade da 1ª premissa. 

1) De fato, os clérigos, os leigos, os fiéis e até os santos católicos divergiram quanto aos reclamantes ao Sumo Pontificado Romano dentre os anos 1378 a 1417, totalizando um período de quase 40 anos de controvérsias, enfrentamentos e debates cujo efeito foi poderoso para o desenvolvimento de uma lenta, porém gradual perda de credibilidade que a Igreja começou a sofrer no seio da Europa durante o Baixo Medievo.

No entanto, o problema era a divergência entre as pessoas que estavam a reclamar a legitimidade de uma eleição pontifícia - nunca e nem sequer por um minuto a divergência foi sobre a ortodoxia católica manifesta na nossa regra de fé, ou nas leis universais, nos ritos litúrgicos, catecismos, canonizações e muito menos num Concílio Ecumênico (Geral). Portanto, mesmo faltando a estes católicos a figura certa de um único pastor, nesse meio tempo todas as querelas doutrinais e todos os ensinamentos acerca da fé ficaram em suspenso, sendo universalmente aceitos por todos os fiéis de todas as facções adversárias dos três reclamantes ao sumo pontificado.

A
 validade da primeira premissa, portanto, é real mas deve ser modulada em razão desse pano de fundo: os fiéis católicos permaneceram católicos durante o cisma do Ocidente? SIM, porque aquilo que era questionado naquela situação histórica não implicava em efeitos imediatamente relativos à confissão da fé católica. Estava sendo questionado se tal ou qual pessoa era o verdadeiro reclamante ao pontificado, não se deveríamos obedecer ou não os decretos dum Concílio Ecumênico (ou a liturgia aprovada em decorrência dele).

2) A 2ª premissa da objeção indiferentista nossos objetores mascaram-na em subterfúgios e sub-razões diversas: a primeira afirma incerteza acerca da vacância ou não da Sé Petrina, em razão de um "mistério da iniqüidade" que "manifesta coisas impossíveis diante de nossos olhos"; a segunda afirma: "é indiferente saber se temos ou não papa" reinante para a manutenção da fé católica; a terceira, que é impossível sabermos fazer um juízo absolutamente acertado sobre essa questão - portanto devemos entender que admitir ser tal ou qual pessoa X o papa é mera questão de "opinião teológica".

Essas três razões justificantes da segunda premissa, no entanto, não se sustentam. 

2.1) A primeira delas é a redução da situação atual a um "mistério" irracionalista. Afinal, se a situação atual é um "mistério da iniquidade", qual a relação direta disso com a incapacidade de se formar um reto juízo racional acerca da realidade que todos os dias vemos diante de nossos olhos? Afinal, que é este "mistério" senão uma forma "espiritualizada" de se dizer que tal realidade suscita profunda perplexidade, questionamentos e DÚVIDAS em nós? Mas, onde existe a dúvida - senão na mente do duvidante? 

No mundo real, as coisas ou SÃO ou NÃO SÃO. 

Não existe estado intermediário entre o SER e o NÃO SER, o que nos faz entender que a realidade, a verdade, é uma só: ou Francisco-Bergoglio (e seus antecessores pró-CVII) são verdadeiros papas, ou não são. Se ele é papa, devemos reconhecê-lo enquanto tal e segui-lo como convém a verdadeiros católicos. Se ele não é papa, devemos rejeitá-lo como usurpador, falsário e mentiroso, negando-lhe o reconhecimento de todo orbe católico.

Ademais, o que é um mistério? Mistério é uma palavra ambígua dentro da linguagem comum, mas em teologia cristã significa todas as incompreensibilidades típicas de uma verdade revelada - como por exemplo, a Santíssima Trindade - todavia certamente não é disso que se trata aqui, quando nossos opositores usam o termo "mistério", eles apenas querem dizer que esta é uma situação de difícil explicação.

Mas apelar para um "mistério" quando a razão e o esforço humano ainda podem destrinchar devidamente uma determinada realidade não é sábio - é sinal de preguiça intelectual, ou talvez de temor frente às conseqüências de uma tal perscrutação.

Talvez digam: "Não! Esse mistério trata da realização de coisas que consideramos impossíveis acontecerem! Não há como esclarecermos algo que sequer podemos entender!" - Ao quê devemos replicar dizendo que:


2.1.1) Por acaso é impossível estabelecer um fato dogmático? Se assim fosse a sucessão apostólica jamais teria clareza evidente, portanto, a continuidade histórica da Igreja Católica estaria abortada e todas as pretensões dela como sendo a legítima Esposa de Cristo na terra estariam frustradas. Portanto, isto é um falso subterfúgio.

2.1.2) Por acaso, ao notarmos que acontece alguma coisa a qual considerávamos ser "impossível" acontecer, qual deve ser nossa atitude, senão revisar nossos conhecimentos?Deveríamos verificar se realmente esta é uma impossibilidade (talvez ela seja apenas relativamente impossível, não absolutamente impossível), de modo a encontrar uma explicação plausível em conformidade com a realidade conhecida? Ou deveríamos revisitar nossos princípios, para saber se eles estão efetivamente bem fundamentados no mundo real? Tudo isso sim, deve ser feito: deste modo, certos fatos anteriormente vislumbrados podem não ser tão certos assim, bem como podem sofrer nova luz e uma interpretação diferente; podemos também passar a conhecer coisas novas que nos façam enxergar algo antes certo como meramente duvidoso, etc.

O que nunca pode entrar em jogo é a nossa adesão filial à FÉ CATÓLICA e à VERDADE OBJETIVA. Oras, dizer que não se pode jamais saber se a regra próxima da nossa fé (o papa) POSSUI OU NÃO FÉ PARA NOS CONFIRMAR NA VERDADEIRA FIDELIDADE A DEUS é certamente absurdo para um fiel católico, dado que um ofício eclesiástico existe em razão do que ele oficia (do que ele faz), e se ele não oficia nada do que lhe é próprio, o cargo é claramente inútil - coisa inadmissível para um católico. É como não ter timoneiro algum na barca da Igreja; em última instância, é sedevacantismo prático sem admissão explícita da justificação teórica.

É, igualmente, um falso subterfúgio simplesmente deixar de refletir acerca de situações aparentemente paradoxais, "impossíveis" e contraditórias, pois deixar-se ficar estupefato diante do inusitado, diferente e inesperado é próprio daquele ser que não evolui em nada a sua agudeza intelectual na perscrutação do universo e na procura da verdade: é próprio do preguiçoso, do covarde, do que enterra seus talentos (cf. Mt 35,13-30).

2.2) O argumento que diz ser indiferente sabermos se há ou não papa é totalmente inadmissível. Esta tese contradiz o Magistério da Igreja, o qual afirma ser "absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice" (Cf. Bula Unam Sanctam). Oras, se alguém é indiferente à ciência de que temos ou não Papa, como pode estar devidamente subordinada a ele? Como ela acatará aos seus comandos, como obedecerá suas ordens, como será instruído por seus ensinamentos, como dará cumprimento às determinações que ele fizer? Como AGIR quando a dúvida paralisa? Não!

Simplesmente, ele não o fará. Tornar-se-á um católico desobediente, insubordinar-se-á, será um rebelde velado na teoria, mas na prática dará de ombros para tudo aquilo que for proveniente da Sé Romana. Certamente, esta não é uma atitude católica a ser cultivada e seus praticantes estão a passos largos rumo ao protestantismo.

2.3) Já a terceira razão alegada para não se subordinar à pessoa atualmente sentada na Sé Apostólica de São Pedro é a de que "não há certeza absoluta que de fato ele seja papa", pois é "impossível fazer um juízo absolutamente certo" sobre o pontificado ou não de alguém - logo, devemos ser indiferentes a isso.

Este argumento nos deixa impressionados pela audácia: se não há certeza absoluta (ou seja, certeza em nível metafísico), não se pode deixar de ser indiferente quanto à existência ou não de um papa!

Obviamente, é uma falsa argumentação. Mas por quê?

Conforme nos ensina o Papa Pio XII em uma alocução de 1942 à Rota Romana (Canon Law Digest, Vol.3, vide páginas 606-608, do §1 ao §3a), o motivo é que a certeza absoluta (metafísica) é, em muitos casos de análise concreta, absolutamente inatingível - e que nos basta outro grau de certeza (a saber, a certeza moral) para afirmar com convicção uma determinada proposição e dela extrair as conseqüências daí nascidas. Não obstante essa certeza moral seja diferente da certeza metafísica, ela é verdadeira certeza baseada no princípio da razão suficiente e é com base nela que devemos extrair nossos juízos de razão prática quando existem fatos dogmáticos a serem observados conscienciosamente.

Donde, existindo razões suficientes que emanam da resposta a todas as dúvidas positivas e razoáveis levantadas contra a pretensão papal de um sujeito, existindo um conjunto argumentativo - que embora quando considera cada argumento por si, isoladamente, não demonstra a certeza moral, mas que quando considera a somatória de inúmeras evidências e provas devidamente contextualizadas exclui toda probabilidade razoável contrária - então aí há a convicção suficiente para se afirmar a certeza moral. (Valendo lembrar ainda que esta certeza é a mesma certeza exigida num tribunal canônico em favor ou desfavor de uma tese que verse sobre fatos histórico-canônicos, conforme o papa Pio XII descreve na alocução anteriormente referida).

3) A conclusão desse arrazoado, portanto, não se pode sustentar.

Os católicos NÃO permanecem fiéis à Fé Católica se voluntariamente desobedecem os critérios bem determinados de subordinação ao Soberano Pontífice, radicados explicitamente na doutrina ex-cathedra do Magistério da Igreja do Papa Bonifácio VIII. Não é indiferente sabermos da existência ou não de papa na Sé Romana - é antes fundamental para estarmos devidamente subordinados a ele.

Isso só seria possível se eles afirmassem formalmente a Vacância da Sé Apostólica, mas posto que alegam essa tese exatamente para se livrarem do espectro do sedevacantismo, não sabemos que sorte de tergiversação hão de usar, agora, para mais uma vez sustentarem o insustentável - a única coisa que sabemos é que não mais usarão o falso argumento indiferentista, posto este ter sido agora devidamente refutado.

domingo, 18 de dezembro de 2016

APRENDER O CATECISMO - Uma importante recomendação para os tristes dias atuais


Por muitos anos, temos visto um ensinamento das Sagradas Escrituras ser ignorado constantemente neste solo brasileiro. Almas têm se perdido incessantemente graças ao negligente ator religioso deste país, cujo desserviço reverbera na Eternidade com "pacotadas" de favorecedores da heresia, do erro e da impiedade brotando em território pátrio como um mofo encardido, vicejante onde não há senão morte e decomposição.


Revitalizar o Brasil - eis o que desejamos do mais profundo de nossa alma. É um dever de consciência fazer todo possível pelos seus co-cidadãos, para que enxerguem a Luz do Mundo, para que experimentem o Sal da Terra, para que cheguem ao conhecimento de Deus.


"Meu povo se perde por falta de conhecimento" (Oséas 4,6a), diz o Senhor. Pois enquanto os olhos do insensato vagueiam a esmo "na face do prudente reluz a sabedoria" (Provérbios 17,24). Falta ao nosso povo aquele amor ao poder salvífico e libertador que a Verdade possui, tal como nos disse Nosso Senhor Jesus Cristo: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8,32).




É, por isso, que convido a todos a conhecerem o excelente trabalho de transcrição que tem sido realizado no blog "Catecismo Católico Popular", onde se verte o texto de um catecismo católico de excelência historicamente reconhecida - o Catecismo Popular do Sr. Professor Francisco Spirago, editado em 1938. Nele, a verdade católica é transposta em linguagem simples, de entendimento fácil e sem firulas ou obscuridades. É publicação aprovada pela Igreja e segura como instrumento de orientação em tempos tão confusos como o nosso.

Recomendo vivamente, pois, o Blog "CATECISMO CATÓLICO POPULAR".


sábado, 3 de dezembro de 2016

Silogismo Anti-Sedevacantista 1 - Não é Falso Papa, é Papa Mau

Muitos católicos atualmente expressam preocupações acerca da possibilidade de terem de escolher por uma posição a eles tida como "tenebrosa", "imprudente" ou "desesperadora": o sedevacantismo.

Em razão disso, uma série de argumentos foram sendo elaborados com o tempo para desmerecer, refutar ou mesmo desmentir a análise que autores católicos adeptos do sedevacantismo faziam da realidade eclesial. Muitos já conhecem os contra-argumentos que refutam suficientemente tais objeções (especial menção aos do Pe. Anthony Cekada, sacerdote católico sedevacantista e norte-americano), mas a maioria desse material está presente em outras línguas, ou é de linguagem acadêmica, mais erudita, obscura à maioria das pessoas comuns.

Neste primeiro texto da série, vamos procurar trazer aos nossos leitores argumentos claros, simples e despretensiosos sobre o tema em tela; no entanto, isso não implicará em dizer que estamos despreocupados com a verdade - apenas que vamos tentar tratar do tema de modo mais acessível a todos os interessados. Boa leitura.

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ARGUMENTO DO PAPA MAU

Premissa 1:
Se um pai age de maneira egoísta, inconseqüente, desonesta, maliciosa, prejudicial ou danosa à esposa e aos filhos, ele é um mau pai;

Premissa 2:
Um mau pai, embora não honre sua paternidade, nem por isso deixa de ser pai;

Premissa 3: 
Ora, de modo análogo ao que tratamos um pai tratamos o papa, seja ele bom ou mau;

Conclusão: 
Portanto, do mesmo modo que tratamos o pai mau, tratamos o papa mau: ele não deixa de ser papa, assim como o pai mau não deixa de ser pai.

Sendo assim, do mesmo modo que se resiste ao pai mau, assim também deve-se resistir ao papa mau - sem que isso lhe retire o pontificado, do mesmo modo que a resistência ao mau pai não o livra da paternidade. Logo, a posição sedevacantista seria exagerada, imprudente e irracional, porque escolheria uma falsa resposta para a resolução da crise na Igreja.

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Neste arrazoado acima descrito, as premissas 1 e 2 estão corretas, mas a premissa 3 exige distinções e modulações para ser verdadeira. Como a analogia é feita de maneira irrestrita e sem as devidas distinções, a conclusão que se seguiu acima é falsa.

Portanto, analisemos a premissa 3. 

Nesta premissa, defende-se que devemos fazer uma analogia entre a figura do PAI e do PAPA. Mas essa analogia tem limites, não é integral, completa (até porque, se fosse integral e completa já não seria analogia, mas identidade). Explico:

Primeiro, a paternidade é um atributo sócio-biológico, decorrente da própria natureza humana. O papado não: o papado é um cargo dentro da estrutura hierárquica da Igreja Católica, não é decorrente da natureza humana

Segundo, a paternidade não pode ser renunciada nem perdida de modo algum: uma vez pai para sempre pai, vivo ou morto. Já o papado não, o papado pode ser renunciado ou perdido: uma vez papa, pode deixar-se de ser papa.

Terceiro, o poder do pai na família é um poder dominativo, de caráter privado. E o papado? O papado não é um poder de caráter privado, mas sim de caráter público - é um poder jurisdicional.

Quarto: enquanto o pai realiza sua função principalmente mediante ordens particulares (que não desfrutam de qualquer grau de proteção divina especial), o papa realiza sua função principalmente através da promulgação de leis universais (que desfrutam de um grau especial de proteção divina especial, a saber, a indefectibilidade proveniente dos objetos secundários da infalibilidade da Igreja). 

Em quinto lugar, as principais ações do pai são pontuais, voltadas para alguns poucos súditos - mas as principais ações do papa são gerais, voltadas para todos os católicos do mundo.

Se bem analisadas essas cinco diferenças, nós veremos que é totalmente inapropriada a conclusão dos que pretendem refutar o sedevacantismo afirmando isso, posto que ao promoverem a analogia entre um papa mau com um pai mau, fazem isso como desculpa para rejeitarem os ENSINAMENTOS MAGISTERIAIS desses papas conciliares, as suas CANONIZAÇÕES, as LEIS UNIVERSAIS e RITOS LITÚRGICOS que por eles foram aprovados.

No entanto, fazer isso é rejeitar o ensinamento da Igreja sobre o objeto secundário da infalibilidade da Igreja, conforme o ensinamento da bula Auctorem Fidei (proposição condenada LXXVIII), do papa Pio VI; do breve Quo Graviora (§17.2), do papa Gregório XVI; e também conforme o papa Leão XIII, na carta Testem Benevolentiae Nostrae (§5.4-5) e do Concílio Ecumênico de Trento (sessão VII, cânon 13), encabeçado pelo papa Pio IV.

Ademais, todos os grandes manuais de teologia dogmática confirmam que o objeto secundário da infalibilidade também desfruta de garantia do Espírito Santo de não oferecer aos fiéis algo prejudicial à fé ou moral católicas, embora não do mesmo modo que uma declaração ex-cathedra (coisa que trataremos no futuro). Vide, por exemplo, o que escreve o teólogo Michael Schmaus, ao descrever o alcance da infalibilidade papal (§177, 2, b), ou ainda o teólogo Ludwig Ott, debatendo sobre a infalibilidade da Igreja no seu objeto secundário (2ª parte, c.4, §13, 2, b).

Portanto, como o alcance da analogia da premissa 3 é extrapolado pela conclusão, segue-se claramente que ela não pode ser verdadeira - donde, não pode ser aceita como argumento verdadeiro, nem objeção válida ao sedevacantismo católico.

Isso, obviamente, não significa que a analogia do papa como pai mau seja sempre ilegítima. Quando um verdadeiro papa dá aos fiéis uma ordem má, ele pode ser resistido - e nisso há forte testemunho da história e do ensinamento católico, seja do Magistério Eclesiástico, seja dos escritos dos Santos, seja do consenso moralmente unânime dos teólogos católicos aprovados pela Igreja. 

Mas, como essa analogia não é válida quando se usa dela para rejeitar ou resistir, por exemplo, a um rito litúrgico (a missa nova de Paulo VI), a uma canonização ou uma lei universal (o Código de Direito Canônico), esse silogismo anti-sedevacantista é falso, pois como um verdadeiro papa não pode fazer essas coisas (e no entanto elas de fato foram realmente feitas), o sedevacantismo permanece sendo uma explicação viável para a crise da Igreja.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

5 Perguntas Sobre o Sedevacantismo e o Tradicionalismo


Recentemente, fui convidado por um amigo para participar de uma comunidade tradicionalista em uma rede social presente na Internet, com a finalidade de responder a seis questões sobre o Sedevacantismo. Depois de algum tempo, coloco-as à disposição, dado que a sua notícia foi considerada escandalosa demais para ser publicada (pois parecia ser "apologética" com relação ao Sedevacantismo), terminando por ser censurada.

Reproduzo aqui as principais perguntas e omito a última, por considerá-la desnecessariamente belicosa. Às questões!

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1ª Pergunta: O QUE É SEDEVACANTISMO?


2ª Pergunta: SEDEVACANTISTAS DISCORDAM DE ALGUM PONTO DA DOUTRINA CATÓLICA ANTES DO CONCÍLIO VATICANO II SOBRE MORAL E FÉ?


3ª Pergunta: SEDEVACANTISTAS PODEM SER CONSIDERADOS DE FATO COMO HEREGES? POR QUE?

4ª Pergunta: EXISTEM PADRES E BISPOS SEDEVACANTISTAS? QUAL A POSIÇÃO DO ATUAL VATICANO SOBRE ELES?

5ª Pergunta: TRADICIONALISTAS PODEM SER CONSIDERADOS SEDEVACANTISTAS? PORQUE? QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE UM RAD-TRAD E UM SEDEVACANTISTA?

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Resposta à Primeira Pergunta:

1) Primeiramente, gostaria de agradecer a possibilidade de falar sobre esse tema. Realmente fico feliz com o fato de vocês procurarem se informar melhor sobre esse assunto, mesmo que seja com uma inspiração negativa (para diferenciarem-se dos sedevacantistas com mais eficiência/eficácia). Pois bem. 

O Sedevacantismo, diferentemente do dito "Tradicionalismo", não é uma posição doutrinal (embora possa supôr uma determinada doutrina, ocasionalmente). Não possui práticas próprias que lhe identificam diretamente, nem tem como tê-las. Igualmente, também não é um "movimento", nem mesmo uma sociedade com valores universalmente identificáveis. O sedevacantismo está muito aquém dessas coisas; quem cunhou esse termo não foram os indivíduos que receberam tal alcunha, mas quem percebia existir um número de pessoas que eram ligados por uma percepção comum: a Sé Apostólica de São Pedro está vacante.

Podem existir CATÓLICOS sedevacantistas, assim como há MODERNISTAS sedevacantistas e mesmo PROTESTANTES sedevacantistas, ou mesmo ATEUS sedevacantistas. Porém, todos esses gêneros de sedevacantistas são muito restritos e não representam a grande maioria dos indivíduos que costumeiramente são chamados "sedevacantistas" - os CATÓLICOS APOSTÓLICOS ROMANOS que entendem estar a Sé de Pedro vacante.

Por isso, chamar alguém de "sedevacantista", por si só, é uma ação inadequada, dado que os tipos possíveis de grupos a serem inseridos dentro desse conceito são tão contraditórios e divergentes quanto outros termos de rotulagem (como FASCISTA e NEOLIBERAL, na boca dos esquerdistas dos três últimos quartéis do século XX). É arriscado e injusto, inclusive, fazê-lo sem o devido critério, por correr grande chance de incluir nesse meio pessoas doidas que se intitulam sedevacantistas (como é o caso de Richard Joseph Michael Ibranyi, que nega o pontificado até de Leão XIII, sendo um herege completo).

Seria útil, penso eu, estabelecer uma distinção dentre os sedevacantistas que REALMENTE importam, ou seja, os sedevacantistas CATÓLICOS. Para fins didáticos (e para todos os fins realmente úteis), dividiremos os sedevacantistas católicos em TRÊS grupos:

1.1 - Sedevacantistas Belarmininanos
1.2 - Sedevacantistas Guerardianos (Sedeprivacionistas)
1.3 - Sedevacantistas Absolutos

O grupo 1.1 entende que a Sé de Pedro está com CERTEZA vacante desde Paulo VI e está sob o governo de um anti-papa. Considera os outros tradicionalistas não-sedevacantistas (especialmente a FSSPX) como ignorantes, inocentes ou errantes - mas não hereges. Se o usurpador se converter, ele NÃO se torna papa imediatamente, diretamente (talvez aceitariam que ele continuasse no cargo por aclamação universal, mas não há muita discussão sobre isso);

O grupo 1.2 entende que a Sé de Pedro está com CERTEZA formalmente vacante, mas está igualmente com CERTEZA materialmente ocupada por um usurpador desde Paulo VI. Se esse usurpador se converter, ele se tornaria Papa imediatamente. Essa tese desfrutou de seu nascimento dentro da FSSPX com Mons. Guérard des Lauriers, eminente teólogo que era considerado referência por Mons. De Castro Mayer (foi ele, aliás, quem convenceu Mons. De Castro Mayer a aceitar as ordenações episcopais sem mandato pontifício que a FSSPX fez). No geral, enxergam os tradicionalistas não-sedeplenistas do mesmo modo que o grupo 1.1;

Já o grupo 1.3 entende que apenas os sedevacantistas permanecem católicos. Todos os outros grupos cometem erros que desembocam em cisma e heresia - logo, não pertencem mais ao corpo da Igreja Católica. Dentro desse grupo, a maior parte afirma a vacância da Sé Romana desde João XXIII (os outros dois grupos anteriores entendem João XXIII como um pontífice duvidoso ou como um mau papa). Dentre eles, brotam os grupos mais radicais - os home-aloners como Hutton Gibson e Mel Gibson, os fiéis ligados à FSSPV, os atualmente ligados ao Dr. Homero Johas, etc. São menos abundantes do que os outros dois primeiros grupos e são mais sectários. Desse grupo nascem TODOS os que se tornaram conclavistas - que não são sedevacantistas, mas já outra coisa.

Enfim, enunciando rapidamente, os Católicos Sedevacantistas entendem que a Sé de Pedro está vacante por diversos motivos, que são normalmente defendidos por duas vias - A VIA DA PERDA DO PONTIFICADO (PAPA HEREGE) e A VIA DA INDEFECTIBILIDADE DA IGREJA (INFALIBILIDADE). A tese que defende a Vacância da Sé Romana com base na infalibilidade das leis eclesiásticas e na indefectibilidade da Igreja Católica é a segunda via - a mais simples e direta; já a tese que acusa as figuras atuais de usurparem a Sé de São Pedro (por estas ditas autoridades serem heréticas) pertence à primeira via - a mais controversa, circunstanciada e complexa.


Resposta à Segunda Pergunta:

2) A pergunta é meio truncada. Você está se referindo a divergência interna dentre os católicos sedevacantistas? Se for isso, a resposta é SIM, porque alguns entendem não existir a validade do batismo de sangue/desejo, por exemplo (embora isso também exista dentre os neo-conservadores, diga-se de passagem). Os sedevacantistas dos dois primeiros grupos (Belarminianos e Guerárdianos) são unânimes ao afirmar que tais tipos cometem grave erro teológico, quando não são diretamente hereges mesmo.

Se a pergunta se refere a uma divergência externa dos sedevacantistas com relação às doutrinas de fé e moral, distingamos: dentre os sedevacantistas católicos, não. Dentre os sedevacantistas acatólicos, sim (afinal, o fator que os torna a-católicos é exatamente não terem a fé católica, nem o desejo de tê-la).

Agora se você se refere exclusivamente a pontos não definidos de doutrina, há várias tendências diferentes, mesmo entre os sedevacantistas católicos.



Resposta à Terceira Pergunta:

3) Dado que o sedevacantismo é apenas o reconhecimento de um fato não apenas POSSÍVEL mas CRONOLOGICAMENTE CONSTANTE na História da Igreja, chamar o sedevacantismo (= reconhecer a sé de Pedro vacante) de essncialmente herético não é apenas temerário, como prova clara de burrice. Afinal, todos os católicos se tornam sedevacantistas quando um papa morre. Se o sedevacantismo é 'per se' herético, LOGO toda a Igreja teria incorrido em heresia imediatamente depois da morte do primeiro papa (o que é impossível, pois é contrário à lógica da infalibilidade e da indefectibilidade da Igreja, é contrário às promessas de Cristo, contrário à ordem da sucessão hierárquica apostólica, etc).

Agora, se alguém afirma que o sedevacantismo acaba sendo acidentalmente herético, duas coisas pode-se considerar: primeiro - se é acidentalmente herético, não é por causa do sedevacantismo que a pessoa se torna herética (logo, irrelevante); segundo, isso ainda fica por provar - afinal, deve-se demonstrar qual verdade de fé divina e católica, ou verdade de fé eclesiástica definida, estamos nós (os católicos sedevacantistas) negando de modo pertinaz. Ficaí o desafio para quem aceitar.

Já quem quer nos acusar de cismáticos, bem, isso é impossível, dado que para sermos considerados cismáticos, precisaríamos negar comunhão um VERDADEIRO papa - e não com um ANTI-Papa. E - supondo por absurdo - MESMO QUE OS CATÓLICOS SEDEVACANTISTAS ESTIVEREM ERRADOS na consideração acerca dessas pseudo-autoridades atuais, eles ainda sim não poderiam ser considerados cismáticos, pois assim ensina a sã teologia católica:

3.1. “Não podem, afinal, ser contados entre os cismáticos aqueles que recusam obedecer ao Romano Pontífice por considerarem a pessoa dele digna de suspeita ou duvidosamente eleita…” (Wernz-Vidal, Ius Canonicum, vol. vii, n. 398).

3.2. “Não há cisma se … se recusa a obediência na medida em que … se suspeita da pessoa do Papa ou da validade de sua eleição…” (Pe. Ignatius Szal, Communication of Catholics with Schismatics, Catholic University of America, 1948, p. 2).

3.3. “…não é cismático quem recusa submissão ao Pontífice por ter dúvidas prováveis concernentes à legitimidade da eleição dele ou do poder dele…” (De Lugo, Disp., De Virt. Fid. Div., disp xxv, sect iii, nn. 35-8).

Donde, nem heréticos nem cismáticos. Os sedevacantistas católicos apenas enxergam determinados fatos concernentes à crise da Igreja de maneira diferente.


Resposta à Quarta Pergunta:

4) Sim. Há centenas (milhares??) de padres e bispos sedevacantistas no mundo inteiro. No site de notícias norte-americano "Traditio", vocês podem encontrar um anuário contendo os principais endereços dos principais centros de católicos tradicionalistas - sedevacantistas ou não - pelo mundo todo. Todos os anos, o referido anuário é atualizado. Lá vc poderá conferir a listagem mais completa que há - com ênfase nos EUA, lógico. No mundo, ainda muitos grupos vão se agregando e surgindo, dando-se a conhecer - mas esse é um processo árduo e nem sempre fiel à virtude da paciência... rs!

O hodierno Vaticano vê com preocupação o número ascendente de tradicionalistas, sejam eles sede-ocupantistas ou sedevacantistas. Acredita-se que o número deles chega a fatiar, nos EUA, mais de 60% dos católicos que imigram legal (e ilegalmente) para o Sul dos Estados Unidos (Flórida, Texas, etc). O número de bispos também é crescente - e a organização deles têm impressionado em alguns lugares - nos EUA especialmente os grupos sedevacantistas são, em números absolutos, muito semelhantes à quantidade dos tradicionalistas ligados à FSSPX (VI.C.§4). Recentemente, Mons. Mark Pivarunas recebeu convites por parte da Nova Igreja para "retornar à plena comunhão"(sic); e não apenas negou-se terminantemente a fazer isso, como deu um sermão histórico no secretário norte-americano (neo-conservador) para a unidade dos cristãos... enfim.

De modo geral, os sacramentos são tidos como inválidos pela nova igreja, por falta de jurisdição ordinária, tanto quanto os sacramentos da FSSPX. Em regime sacramental, é a exata mesma proporção de tolerância dada à FSSPX que é dada aos padres e bispos sedevacantistas.


Resposta à Quinta Pergunta:

5) Depende. 

Em um certo sentido sim, em outro não. Sim, porque sedevacantista é quem reconhece que a Sé de Pedro está vacante e age em conformidade com essa compreensão. Ora, boa parte dos tradicionalistas não presta o mais mínimo assentimento ao que ensinam os papas atuais, prega a desobediência habitual, relativiza todos os ensinamentos das autoridades que reconhece legítimas, ignorando porém completamente tudo o que provém desse magistério. Isso é agir como se o papa fosse apenas uma casca oca - trocando em miúdos, seria agir como um sedevacantista, embora pense como um sede-ocupantista/sedeplenista. 

Em outro sentido, não, pois mesmo quem rejeita quase sempre a submissão pode perfeitamente submeter-se a um decreto doutrinal que obriga a todos os católicos, como é o caso, por exemplo, da declaração contrária ao sacerdócio feminino. Se reconhecem essa autoridade quando ela obra bem mas não quando ela obra mau, estão - pois - ligados a ela ainda de uma maneira real, embora de modo bastante vago.

A diferença entre um rad-trad e um católico sedevacantista é simples - o primeiro acredita que as autoridades que estão à frente da revolução anti-católica comandada por Satanás, através da nova igreja, são católicas ainda (embora errantes, perniciosas, modernistas, hereges materiais, inimputáveis moralmente, etc, etc...). O segundo, porém, entende que as autoridades que estão à frente da revolução anti-católica, através da nova igreja, não são e nem podem ser autoridades católicas realmente, dado que (1)fazem o que é impossível a Igreja fazer graças à indefectibilidade e/ou (2)tais pessoas investidas do cargo papal são na verdade hereges usurpadores.

Resumindo, a posição dos rad-trads poderiam se resumir no seguinte axioma (aliás, é o resumo que a própria SSPX faz de si mesma, na nota 18 de seu opúsculo "Sedevacantism: a False Solution to a Real Problem"): "O papa é papa se ele ensina aquilo que é ortodoxo, e não o é quando ensina heresia" - no sentido que mesmo ensinando heresias, ele continua católico. Já a posição dos sedevacantistas não pode-se resumir nessa frase, porque eles consideram que a regra viva da fé é o papa, e não se pode contrapôr "o que é ortodoxo" àquilo que o papa ensina (magistério) sem com isso colocar em questão o próprio papado.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Silogismos Anti-Sedevacantistas - Introdução

  As diversas tentativas de se demonstrar a falsidade do catolicismo sedevacantista poderiam encher facilmente um quarto só com textos, livros, artigos... 
  Lembro-me de ter escutado, com bastante vivacidade mental e interesse (afinal, eu era parte interessada no tema!), inúmeras críticas contra essa posição teológica e, por anos a fio, recheadas de veemência e paixão, vi vozes se erguerem como trovões contra esse pequeno grupo de fiéis que afirma estar vacante a Sé Petrina. Gastei-me pesquisando várias delas, em várias línguas, por muito tempo - mas com grande decepção da minha parte! Poucas análises sequer conseguiram captar a substância do que seja o sedevacantismo enquanto tal; menos artigos ainda enxergaram a situação real do estado jurídico dos sedevacantistas dentro da Igreja; quase nenhum foi capaz de apresentar uma objeção que já não houvesse sido refutada antes por grandes expoentes do catolicismo sedevacantista. O meu trabalho intelectual de criação de refutações dos argumentos anti-sedevacantistas existiu também, mas muito menos do que originalmente eu esperava ter de realizar.

  Já modulando este assunto para nossa realidade brasileira, a coisa foi ainda mais baixo nível: qualquer pessoa que defenda a tese sedevacantista é, a priori, quase fisicamente escorraçada de todos os grupos que se auto-intitulam católicos. Vê-se que há uma verdadeira rejeição irracional contra os católicos sedevacantistas, porque já é quase senso comum rotularem-nos (especialmente entre os grupos católicos sedeplenistas, que nos vêem como uma ameaça a ser extirpada, como se fôssemos um vírus) como "cismáticos", "hereges", "radicais", "seita", "fanáticos", etc.

  Tendo em vista cada uma dessas coisas, postarei aqui todas as objeções que eu, pessoalmente, estive a conhecer durante anos e anos. A oportunidade de estudar tais objeções sempre me foi vista como uma depuração em favor da verdade, pois quem ama a Verdade não procura afastar de si objeções ou contrariedades: antes, muitas vezes até chega a procurá-las, a fim de ou confirmar a credibilidade de sua posição ou de corrigir-se (caso estivesse desviando-se da senda da Verdade por meio de uma compreensão distorcida da realidade). Assim, no intuito de verificar a procedência de cada uma das questões, bem como a sua racionalidade, veracidade e justiça, procurarei apresentar os argumentos, premissas, conclusões e fontes com o máximo de objetividade possível.

  Construirei - para facilitar a exposição das diversas objeções - silogismos simples, que condensarão a cada novo post uma argumentação a ser analisada; após a análise, a refutação será disposta em um parágrafo sintético, resumindo os motivos pelos quais não se pode admitir a cogência lógica da objeção anti-sedevacantista apresentada por outras pessoas. Comentários críticos às minhas futuras refutações serão sempre aceitos desde que feitos com educação, seriedade, boa disposição de espírito e pertinência temática. Abrirei precedente para o envio de objeções contra as refutações apresentadas, caso alguém acredite que eu não tenha exposto adequadamente o silogismo anti-sedevacantista em questão. Não quero aqui desobedecer aquilo que a Santa Madre Igreja sempre nos ensinou nessas questões.

  Peço a todos vós, amigos de Deus e amantes da Verdade Eterna: roguem a Deus para que eu não cometa quaisquer injustiças enquanto estiver empreendendo esta iniciativa. Eu a empreendo por entender que esta pode render maior Glória a Deus Nosso Senhor, aclarando mentes, confirmando corações e demonstrando a compatibilidade da posição sedevacantista com a Fé Católica.

domingo, 1 de maio de 2011

Refutando o opúsculo "Vaticano II: Ruptura ou Continudade?"

REFUTAÇÃO DA TESE CENTRAL
DO OPÚSCULO


  Introdução

  Primeiramente, gostaria de relembrar a tese central de nosso autor analisado (me refiro ao Padre (?) Paulo Ricardo de Azevedo Júnior), compendiando-a tanto quanto posso numa só frase:

  Devemos julgar o Concílio Ecumênico do Vaticano II do mesmo modo que (de acordo com o autor) foi julgado o Concílio Ecumênico de Constantinopla; isto é, conforme a mesma criteriologia. E esta criteriologia resume-se à "interpretação" dos textos promulgados em Assembléia Conciliar, a fim de estes se adequarem à Doutrina Tradicional da Igreja e serem recebidos pela Igreja ("receptio"), por mais que os textos possam apresentar "dificuldades", "fraquezas", "ambiguidades", etc; de modo independente da opinião, moralidade ou credibilidade dos seus redatores conciliares.

  Assim resumido, vou criticar aos poucos cada ponto errôneo, procurando mostrar ao mesmo tempo contra qual verdade católica este erro está posicionado.

  Que Deus me ajude a não cometer injustiça alguma ao tratar desses temas, mas tão somente ser eco daquilo que a Santa Madre Igreja sempre ensinou.

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  Erro nº1: Um Concílio Ecumênico da Igreja têm valor efetivo a partir da sua receptio; e não da sua aprovação formal por parte da autoridade competente - o Sumo Pontífice.
 
  Ao contrário do que afirma nosso autor na página 18 do seu opúsculo ("O Concílio Ecumênico, para ser verdadeiro Concílio da Igreja, precisa ser recebido por ela. Existe um tempo para que o documento seja produzido, e um tempo para que a Igreja receba esse documento.") todo e qualquer Concílio Ecumênico tem valor não a partir de uma alegada "receptio", mas sim da sua aprovação por parte do Sumo Pontífice (vide o documento magisterial Dictatus Papae, proposição XVI - "Que nenhum sínodo se chame universal se não for por ordem do Papa").

  Oras, como católicos, sabemos que para haver a validade efetiva de um Concílio Ecumênico exige-se que o papa tenha participação ou consentimento na convocação desta reunião, na direção dessas discussões e por fim na aprovação / confirmação dos documentos e decretos. Se não houver a possibilidade de se realizarem todas essas condições, a condição sine qua non para a aprovação dum Concílio como Ecumênico é que o papa aprove-o enquanto tal. Isso é aquilo que torna tal magna reunião de bispos um Concílio Ecumênico da Igreja, e não outra coisa. Exemplo disso é o já antes citado Concílio de Constantinopla - que foi feito originalmente para ser um sínodo regional, e não para ser um Concílio Ecumênico; embora tenha este ocorrido no século IV, só foi aceito pela Igreja como Concílio Ecumênico cerca de dois séculos depois; e num primeiro momento apenas alguns dos seus decretos foram aprovados por Roma, outros não o foram senão muito tempo depois (dentre estes, especial menção faço ao terceiro cânone, referente à primazia de Constantinopla como uma espécie de "Segunda Santa Sé"). Outro exemplo: a bula de confirmação do Concílio de Trento, Benedictus Deus (pode ser lida completa, em inglês, no final desse documento aqui referido); nela, é clara a evidência de que o Concílio possui validade e cogência imediatamente, a partir de sua aprovação papal; não antes ou depois.

  Dizer que há um "tempo" para que um Concílio Ecumênico produza os seus textos e outro para que estes sejam aceites pela Igreja, num sentido sociológico do termo (tal como depreende-se do erro nº4, apresentado logo mais), é uma perversão daquela submissão que deveria ser imediata e totalmente cogente à consciência de todo católico no momento mesmo da aprovação formal dum Concílio Ecumênico. Pode-se dizer, então, ser este primeiro erro distorcer o verdadeiro significado daquilo que seja o critério real da aceitação de um Concílio Ecumênico em detrimento de um obscuro conceito de "receptio", que não encontra base no Ensinamento Magisterial precedente, nem na Tradição da Igreja ou nas Sagradas Escrituras.

  Portanto, um católico não pode aceitar isso sem incorrer em erro grave contra sua fé.

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  Erro nº2: O sentido verdadeiro do texto conciliar não está presente já no ato mesmo da formulação, senão quando é interpretado a posteriori para ter concomitância com a doutrina da Igreja.

  Ao contrário do que afirma o nosso autor na página 19 do seu opúsculo ("Como a Igreja lidou com o Concílio de Constantinopla? Ela analisou o texto fraco, equívoco de Constantinopla e o interpretou de forma forte, inequívoca, católica, ortodoxa; Eis o milagre: a Igreja fiel de Cristo. Um bando de bispos que não valiam o que comiam fizeram um Concílio Ecumênico e a Igreja, fiel a Cristo, recebeu-o na fé ortodoxa e verdadeira. (...) Um texto dúbio foi lido e interpretado na fé e na tradição da Igreja. Esse quadro foi apresentado para mostrar o que é um Concílio Ecumênico.") o verdadeiro e legítimo sentido de um texto não é fruto de uma interpretação a posteriori feita para ter concordância com as verdades de fé que nos ensina tradicionalmente a Santa Madre Igreja. Pelo contrário: quando um autor qualquer elabora mentalmente um texto, a mensagem e os significados que serão passados necessariamente antecederão a redação desse mesmo texto. Existirão sempre antes de um texto.

  Admitindo logicamente que o autor quis significar algo no texto - quis efetivamente passar uma mensagem - é evidente que o melhor modo de se ler o que este autor escreveu é interpretar o texto segundo aquele significado que esse autor tencionava expor. Pressupondo razoável habilidade expressiva do autor, então o texto exprimiria o significado que o mesmo deseja transmitir. Oras, se o verdadeiro significado de uma idéia expressa no texto não está já presente na mente do autor antes da redação desse mesmo texto, então temos uma situação absurda na qual o autor do texto desconhece o significado mesmo do produto de sua elaboração literária. É uma situação tão inusitada como escrever uma carta hoje a alguma pessoa e dizer: "Ah, o significado dessa carta que acabei de lhe escrever? Não sei. Mas daqui a alguns anos vou submetê-la a uma análise, e dizer qual é o seu verdadeiro significado coerente com a minha pessoa".

  Se esta obscuridade de significado é impressionante num exemplo banal desses, que diremos quando tratarmos de um Concílio Ecumênico?

  Ora, os textos conciliares são obra de autoria coletiva. Esses inúmeros autores podem ter tido - e de fato tiveram - intenções divergentes. No entanto, tendo a intenção "X" prevalecido sobre a intenção "Y" por meio dos votos sobre a redação do texto, e tendo sido essa votação aprovada, o sentido do texto a ser remetido como o verdadeiro sentido do texto é o sentido aprovado pelo "Sensus Patrum", isto é, é o sentido dado ao texto pelos padres conciliares por sua vez aprovado e reiterado pela autoridade competente (no caso, um papa). Quando aprova-se um documento, aprova-se o sentido direto daqueles escritos, com a citada intenção sendo aprovada por meio deste. Se essa intenção for reinterpretada a posteriori por um outro - distorcendo ou chegando a contraditar o significado originalmente aprovado - então há a falsificação do sentido dado no passado por um outro mais conveniente hoje, no presente.

  Dizer que esse ato - reinterpretar um texto dúbio como se fosse unívoco - é um quadro demonstrativo do que é um Concílio Ecumênico, nos obriga a admitir que os Concílios Ecumênicos naturalmente podem falsificar e efetivamente já teriam falsificado em ocasiões passadas (ou seja, o Concílio Ecumênico de Constantinopla - segundo o exemplo do sr. Azevedo Júnior) o significado objetivo dos textos em favor de outro sentido mais conveniente, canonizando assim uma hermenêutica falsa (farsa interpretativa!) como expositora legítima dos Dogmas de Fé, da Verdade Católica, da Sã Doutrina que nos foi legada.

  Falsificar o significado objetivo de um texto para fazê-lo dizer o que queremos não é um milagre; antes, é uma mentira, é um ato incorreto, é uma injustiça. E como não podemos admitir que a Igreja minta, seja incorreta ou injusta em matéria referente à Fé, não podemos sequer supor que este seja um método adequado para verdadeiramente se entender um texto conciliar - ou qualquer texto.

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  Erro nº3: O texto do Concílio de Constantinopla é fraco e ambíguo.

  Ao contrário do que diz o sr. Azevedo Júnior na página 19 ("Como a Igreja lidou com o Concílio de Constantinopla? Ela analisou o texto fraco, equívoco de Constantinopla e o interpretou de forma forte, inequívoca, católica, ortodoxa;(...) Um texto dúbio foi lido e interpretado na fé e na tradição da Igreja."), o Concílio de Constantinopla não poderia ser ambíguo, pois os grupos que poderiam beneficiar-se de quaisquer interpretações heterodoxas haviam sido condenados no cânone nº 1 desse mesmo concílio com anátema! E além disso, o 5º cânone também possui uma profissão de fé da idêntica divindade das Três Pessoas Divinas. Para que vejamos a força dessas verdades que aqui enunciamos, leiamos primeiro o texto do quinto cânone (pela tradução de Mons.Otto Skrzypczak no livro "Documentos dos Primeiro Oito Concílios Ecumênicos"; Edipucrs; 2ª edição; 2000):
"Quanto aos escritos dos ocidentais: Em Antioquia acolhemos os que professam ser uma só a Divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo"

 
  E agora leiamos o texto do primeiro cânone (tradução minha):
"A fé dos 318 santos padres reunidos em Nicéia da Bitínia não deve ser abrogada, senão fortalecida; se deve anatematizar toda a heresia, especialmente a dos eunomianos ou anomeus, dos arianos ou eudoxianos, dos semi-arianos ou pneumatômacos, dos sabelianos, dos marcelianos, dos fotinianos e dos apolinaristas."

  Para quem não sabe, a heresia dos Pneumatômacos é exatamente aquela heresia (nega a divindade do Espírito Santo) para a qual o sr. Azevedo Júnior advoga a possibilidade de defesa através da ambiguidade da profissão de fé do credo niceno-constantinopolitano. Mas, oras! Como o Concílio abriria precedente para uma interpretação heterodoxa se sabemos que o mesmo condenou explicitamente a heresia dos que negavam a divindade do Espírito Santo? Além disso, Pe.(?) Paulo Ricardo usa uma brecha significativa para defender a sua tese: a existência de várias versões do texto aqui em questão. Mas, havendo mais de uma tradução da frase latina do Credo "qui cum Patre et Filio simul adoratur et conglorificatur", deve-se pois procurar traduções mais exatas e mais conformes o significado original da expressão. Se algumas traduções abrem precedente para uma possível ambiguidade, não podemos dizer isso de uma das últimas traduções que os próprios neo-conservadores entendem ser das mais exatas. Ela não deixa dúvidas: o Espírito Santo recebe com o Pai e o Filho uma MESMA adoração e glória (vide página 111 do "Enchiridion Symbolorum"; Denziger Hünermann; 2006; tradução espanhola das versões grega e latina do Símbolo Niceno-Constantinopolitano; ou vide nesse link outra autorizada versão espanhola do referido Credo que diz: "que con el Padre y el Hijo recibe una misma adoración y gloria").

  Oras, se o Espírito Santo recebe uma mesma adoração e glória, ele não pode ser inferior ao Pai ou ao Filho, mas antes deve ser igual. E se deve ser igual ao Pai em adoração e glória - não inferior nem superior, mas idêntico (sabendo que o Pai é Deus, um ponto pacífico mesmo aos hereges em questão) -, O Espírito Santo necessariamente também deve ser tido como Deus.

  Há ainda de se considerar o estudo específico sobre o tema da Profissão de fé na divindade do Espírito Santo escrito pelo Candido Pozo (SJ) "Las fórmulas del Credo del Concilio I de Constantinopla sobre el Espíritu Santo" - em "Vivir en el Espíritu"; Madrid; CETE; 1981; p. 287-298 - estudo este citado como fonte do livro de Justo Collantes, "A Fé Católica: Documentos do Magistério da Igreja" - trad. br. por Paulo Rodrigues, RJ/Anápolis: Lumen Christi/Diocese de Anápolis, 2003, p. 288; com a nota 9 incorporada na citação - que, ao comentar num dos seus capítulos sobre a gênese do Credo Niceno-Constantinopolitano, afirma:

“...estava surgindo uma nova heresia contra o Espírito Santo, cujos adeptos foram denominados por Santo Atanásio “pneumatômacos” (lutadores contra o Espírito) e vulgarmente chamados “macedonianos” porque o fautor da heresia era Macedônio, bispo de Constantinopla. Um sínodo romano celebrado nos anos 380 foi ineficaz para contê-la, e o Papa São Dâmaso deu sua anuência ao Imperador Teodósio I para a celebração de um concílio em Constantinopla (381), de que participaram 150 bispos, todos orientais. O Papa não se fez representar, mas o Concílio de Calcedônia (451) o considerou expressão universal da Fé católica. Seu símbolo não é original, no que se refere ao Pai e ao Filho, mas dá nova explicitação quanto ao Espírito Santo, ao Qual chama Senhor e Vivificador [9. Chamar ao Espírito Santo “Senhor e Vivificador” equivale a chamá-Lo Deus, pois se trata de uma vivificação sobrenatural, que, já no século III, significava uma espécie de deificação; e só Deus pode deificar, “vivificar” o homem.], que procede do Pai, e, como o Pai e o Filho, é digno de adoração. Assim é claramente afirmada a divindade do Espírito Santo. Este Credo é conhecido, a partir do século XVII, como o Símbolo de Nicéia-Constantinopla.”

  Ou seja - nem mesmo os mais recentes estudiosos dessa área confirmam a nada piedosa interpretação do Credo Niceno-Constantinopolitano como "fraco", "equívoco" ou "ambíguo" feita por Pe.(?) Paulo Ricardo. Isto, evidentemente, é sinal distintivo que esta tese é antes uma distorção do que uma reta compreensão das verdades de fé professadas em Constantinopla.

  Mas, afinal, em quem poderia ter se baseado Pe.(?) Paulo Ricardo para extrair ambiguidades inexistentes de um Concílio cuja Profissão de Fé adveio - muito provavelmente, segundo especialistas - da inteiramente trinitária profissão de fé Ancoratus, do Bispo de Salamina - Santo Epifânio? (vide DzH 42-45; ou Dz 13-14) Segundo pude verificar no livro (livro que não indico, diga-se de passagem) "The Seven Ecumenical Councils", do protestante Philip Schaff, o historiador protestante Adolf von Harnack - herege expoente do racionalismo e criticismo teológico protestante - defendeu no passado exatamente essa mesma proposição de Pe.(?) Paulo Ricardo de Azevedo Júnior acerca da equivocidade do Credo de Constantinopla em favor dos hereges pneumatômacos (vide nota 205 do referido livro). E quase a mesma coisa foi insinuada por Joseph Ratzinger no seu livro "Principles of Catholic Dogma", no Epílogo "The Status of Church and Theology".

  Suspeito, no mínimo...!

  Dizer que um Concílio Ecumênico possui texto fraco e ambíguo descontextualizando-o (e fingindo que o texto do Decreto "Auctorem Fidei" não condena a ambiguidade mesma existente em textos cuja retidão semântica deveria ser exemplar!), ou considerando abstratamente a sua profissão de fé sem qualquer relação com os seus decretos e anátemas é um erro que não pode ser aceito por pessoas que são honestamente católicas. Donde, além da irreverência em se questionar a credibilidade objetiva de um Concílio aprovado universalmente por toda Igreja, temos também a falsidade da acusação crítica contra o Concílio Ecumênico de Constantinopla.

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  Erro nº 4: Pode-se fazer, para entender a criteriologia necessária à compreensão do Concílio Vaticano II, analogia com Concílio de Constantinopla.

  Ao contrário do que escreveu o sr. Azevedo Júnior na página 14 nota 13 do seu opúsculo ("Gostaria de descrever aqui o Concílio de Constantinopla, de 381, para entendermos o que devemos fazer com o Concílio Vaticano II."), não é possível estabelecer a específica analogia em questão entre estes Concílios sem ao mesmo tempo cometer um erro grave de distorção. Isso porque há tantas diferenças significativas entre o Concílio de Constantinopla e o Concílio Vaticano II que sequer pode-se afirmar que a Igreja poderá fazer com o segundo o mesmo que "fez"(sic) com o primeiro.

  Compreendendo que esse argumento só existe em função das mentirosas distorções anteriores, já devidamente refutadas, a força do argumento já é quase eliminada; mas para dar sinal da impropriedade com que foi tratada essa questão, convém colocar em relevo pelo menos 5 principais distinções (Obs: Argumentarei também ex concessis, ou seja, a partir do modo de pensar do adversário, que reconheço deliberadamente como errôneo. Não significarão tais argumentos que eu admita tudo o que afirmarei acerca do CVII - como, por exemplo, a idéia de que o Vaticano II foi efetivamente aceito e aprovado pela suprema autoridade católica, isto é, um Sumo Pontífice).

  São elas:
  - O Concílio de Constantinopla foi originalmente pensado para ser um Sínodo Regional, e não um Concílio Ecumênico. Já o Vaticano II foi desde o começo até o fim entendido como um Concílio Ecumênico. Se a autoridade formal do primeiro foi modificada após certo tempo (de regional para Ecumênico), a autoridade formal do segundo não teve nenhum hiato (sempre Ecumênico).

  - O Concílio de Constantinopla foi aprovado como Concílio Ecumênico após quase dois séculos de esclarecimentos sobre a sua doutrina, e ainda sim, não o foi integralmente. Já o Vaticano II gozou da chancela de Ecumênico após a aprovação definitiva de todos os seus documentos; coisa que aconteceu imediatamente após o fechamento do Concílio Vaticano II.

  - O Concílio de Constantinopla pretendia tratar de temas doutrinais. O Vaticano II pretendia tratar de temas pastorais, especialmente o "Aggiornamento".

  - O Concílio de Constantinopla promulgou anátemas contra os grupos que prejudicavam a Fé Católica na época. O Vaticano II não só não o fez como evitou ao máximo qualquer linguagem negativa.

  - O Concílio de Constantinopla foi convocado pelo imperador romano Teodósio I, foi dirigido e fechado pelo Patriarca de Constantinopla. O Vaticano II começa, se desenvolve e termina com a presidência da máxima autoridade católica, ou seja, o Sumo Pontífice.

  Daí depreende-se claramente: o nível de questionamento acerca de ambos é distinto. O contexto de ambos é distinto. O tema de ambos é distinto. O problema relativo a ambos também é distinto. Somente isso, a bom conhecedor da Fé Católica, já bastaria para fazer perceber que quaisquer analogias entre o Vaticano II e Constantinopla são, no mínimo, muito problemáticas. Mas nesse caso específico são mais do que meramente difíceis - são inapropriadas e indevidas.

  Prova-se isso através da resolução de mais um dos possíveis desdobramentos argumentativos que pode-se ter ao ler o opúsculo, formulando assim a seguinte pergunta: se a Igreja demorou quase 2 séculos para aceitar o Concílio de Constantinopla como Concílio Ecumênico, porque o mesmo não pode se dar com o Concílio Vaticano II? Se foi o Concílio de Constantinopla também considerado problemático em seus cânones e decretos, mas mesmo assim foi aceito pela Igreja, qual a razão de negar-se isso ao Vaticano II? A resposta a tal objeção dá-se através da distinção do que é "aceitação"/"recepção" segundo toda a tese do autor aqui em análise.

  Nas palavras de Pe.(?) Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, "aceitar"/"receber" aqui significa tanto o processo histórico de compreensão e incorporação sociológica de uma doutrina numa determinada sociedade (no caso, a comunidade dos fiéis pertencentes à Igreja Católica) quanto a aprovação formal da doutrina pela Igreja. Pode-se provar isso claramente no discurso dele, especialmente ao ler a página 28 de seu opúsculo, que diz:
 "Na aula passada, discorremos sobre o Vaticano II e definimos o que é um Concílio [Ecumênico]. Relembremos que este é a expressão da suprema autoridade da Igreja, porém, nem todo Concílio a expressa de forma eficaz. Na História da Igreja, muitos Concílios não foram bem-sucedidos. Isso deveu-se ao fato de que foram realizados, mas não houve receptio, não houve recepção, ou seja, as decisões não foram recebidas pela Igreja que, de alguma forma, não as reconheceu como expressão da fé apostólica."

  E depois, no parágrafo imediatamente posterior ainda da mesma página, lemos:
 "Vivemos uma época na qual o Concílio Vaticano II precisa ser recebido. Se analisarmos a história da Igreja, veremos que ela não tem a pressa, a rapidez que nós temos. Estamos na era da técnica, da informação imediata, na qual as reações são percebidas quase que automaticamente. Porém, as pessoas não se movem por decreto, e um corpo como o da Igreja não é mudado do dia para a noite, pois muitas coisas levam tempo para serem absorvidas."

  Ainda, na próxima página, fechando o argumento:
 "Não há, por exemplo, contradição entre o Concílio de Trento e o Vaticano II.(...) Os dois Concílios devem ser interpretados em consonância com os outros. Essa visão significa a verdadeira receptio, a verdadeira recepção do Concílio Vaticano II, que ainda está sendo posta em prática, visto ainda hoje não ter sido recebido em sua plenitude."

  Estes textos são demonstrativos da confusão que denunciamos. Pe.(?) Paulo Ricardo usa equivocamente o termo chave de toda a sua argumentação (isto é, recepção e seus derivados), advogando que ao mesmo tempo um Concílio Ecumênico precisa passar tanto por uma recepção popular/sociológica para ser aceito como expressão da fé apostólica - uma monstruosa inversão criteriológica, condenada pela Igreja Católica - como pela recepção enquanto aprovação formal do Magistério da Igreja. Mas ora, se algo passa pelo crivo da aprovação formal do Magistério da Igreja, não é necessária qualquer recepção popular para se fazer deste objeto aprovado "expressão da fé apostólica". Afinal, como já provamos ao denunciar o erro nº1, esse critério é a-católico, errôneo. Oras, pode-se tolerar que alguém fale, num sentido amplo e pouco preciso, da recepção do Concílio de Constantinopla pela Igreja, pois o mesmo foi analisado pela Igreja durante quase dois séculos antes de ser aprovado formalmente enquanto Concílio Ecumênico, após a depuração de todas as controvérsias relativas a autenticidade de cânones, das versões, etc. Mas pode-se dizer o mesmo do Vaticano II? Evidentemente a resposta é não, como já provamos anteriormente; de modo nenhum podemos comparar, no referente à questão disputada, o Vaticano II ao de Constantinopla.

   É assim que chega-se, pois, ao problema central: se o Vaticano II foi realmente um Concílio Ecumênico, uma "expressão da fé apostólica" (efeito necessário de se aceitar a recepção enquanto aprovação formal), então não se pode afirmar a necessidade hodierna de uma "receptio" senão a quem é um herege. Mas, ao contrário, se um Concílio Ecumênico já aprovado pelas autoridades competentes só é "expressão da fé apostólica" quando há uma recepção popular/sociológica, então temos que não é mais o Sagrado Magistério Apostólico o sujeito quem determina o que é ou não "expressão da fé apostólica": é o corpo dos leigos. É a Igreja popular. É o Povo de Deus, no pior sentido do termo. É a Igreja de Boff e Betto de mãos dadas com a Igreja da "hermenêutica da continuidade". Compreensível é, então, a motivação da Nova Roma nunca excomungar os Teólogos da Libertação: estes estavam defendendo, afinal, a mesma coisa que aqueles. Tanto os neoconservadores como os modernistas escancarados se irmanam na sua rejeição de uma criteriologia compatível com a fé católica para defender o Concílio Vaticano II.

  Para quem teve a audácia de distorcer a criteriologia católica e juntamente com esta o Concílio de Constantinopla, que significa, afinal, afirmar que o Vaticano II pode ser julgado pelos mesmos critérios que se julgou o Concílio de Constantinopla? Significa uma só coisa: pode-se distorcer quaisquer palavras, para significar o que se quiser no momento em que se desejar.

  Como tamanho absurdo passou despercebido aos olhos de tantos fiéis católicos?

  Seria já o momento de denunciarmos o fruto daquela "operação do erro" (cf. II Tess 2,7-12) que Deus haveria de enviar aos que não amam a Verdade, antes que Cristo retornasse?

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  Haveriam outros erros a serem discutidos ainda, mas não creio ser necessário continuar discorrendo sobre o tema: bastam esses erros para os senhores notarem claramente, segundo os moldes expostos por Pe.(?) Paulo Ricardo de Azevedo Júnior: a "Hermenêutica da Continuidade" não passa de uma farsa, de um enorme conjunto de erros acerca da fé católica que não merecem nossa adesão ou credibilidade.

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Fraternalmente,
em Jesus e Maria,

Aruan J.B.de Freitas